Vais ou ficas?

A mosca da fruta pode até não parecer um animal particularmente social. No entanto, este minúsculo inseto permitiu a descoberta de um novo fenómeno – um sinal social de segurança.

O Laboratório de Neurociência Comportamental

A Pergunta

De cardumes de peixes a manadas de antílopes e até a sociedades humanas, uma das muitas vantagens de viver em grupo é a segurança que lhe está inerente. Rodeados pelos seus similares, os animais podem baixar as guardas e participar calmamente noutras atividades, sejam elas a procura de alimento ou a escolha de vídeos no YouTube.
 
Mas a "regra da segurança nos números" não se resume apenas ao estar em grupo. Em muitos casos, a comunicação também desempenha um papel importante. Gritos, ganidos e latidos são frequentemente utilizados para sinalizar situações de perigo. Mas como é que os animais comunicam entre si para avisar que a ameaça já terminou? E como é que essa informação é processada no cérebro?

Os investigadores do laboratório de Neurociência Comportamental procuram respostas a estas perguntas. Recentemente, a equipa demonstrou que mosquinhas da fruta, na presença de uma ameaça, nem sempre fogem. Se uma sombra ameaçadora se aproxima, e a fuga não é uma opção, então as mosquinhas reagem da mesma maneira que qualquer um de nós reagiria: ficam imóveis.

Esta descoberta aguçou ainda mais a curiosidade dos investigadores - seria este comportamento diferente se as mosquinhas estivessem na companhia de outras?

Metodologia Científica

Para começar a responder a esta pergunta, a equipa caracterizou de forma sistemática o efeito que o tamanho do grupo tinha na imobilização das mosquinhas. Quando em companhia, as mosquinhas ficavam sempre menos tempo no estado imóvel do que quando estavam sozinhas!

Mas por que razão passavam menos tempo no estado imóvel? Será que se sentiam mais seguras na presença de outras potenciais vítimas daquela ameaça? Ou estaria a acontecer alguma forma subtil de comunicação?

Para testar a "hipótese da comunicação", a equipa realizou mais experiências. Agora, em vez de usarem apenas mosquinhas normais, recorreram a grupos compostos por uma mosca normal e quatro companheiras “especiais”, que ou eram cegas ou eram mosquinhas artificiais controladas por ímanes. Com estes grupos foi possível a criação artificial de novos padrões de comportamento em grupo e consequentemente, o estudo do seu efeito na mosquinha normal.

Os resultados revelaram que as mosquinhas estavam de facto atentas ao comportamento dos seus pares. Na presença da ameaça, a probabilidade de uma mosquinha ficar imóvel era menor se as suas companheiras estivessem em movimento. E mesmo quando ficava imobilizada, recomeçava a mover-se mais cedo se as restantes estivessem a circular em seu redor. 

Por outras palavras, as mosquinhas interpretavam o movimento do grupo como um sinal de que era seguro voltar a mover-se. O comportamento do grupo estava assim a servir de pista social de segurança!

Depois desta descoberta, os investigadores focaram toda a sua atenção no cérebro.

O primeiro suspeito foi um grupo de neurónios visuais que fica ativo em resposta ao movimento de pequenos objetos. Foi então que a equipa desligou a atividade desses neurónios no cérebro das mosquinhas e observou se o seu comportamento seria alterado.

A manipulação teve um efeito claro. Na presença da ameaça, as mosquinhas continuavam a ficar imóveis, mas agora tinham muito mais dificuldade em interpretar o movimento das suas companheiras como um sinal de segurança.

Estas descobertas foram realmente surpreendentes pois, embora exista ampla evidência da existência de um efeito de atenuação social do medo, tanto em contexto natural, quanto laboratorial, até agora não se sabia que sinais estariam a mediar este fenómeno. Além disso, a equipa acredita que os paralelismos existentes entre as mosquinhas e outros animais poderão abrir caminho para uma compreensão de mecanismos comuns entre espécies. 

Neste momento

A equipa está agora empenhada em investigar a forma como o cérebro deteta e processa este novo sinal social. Para isso, o seu objetivo é identificar todo o circuito neural envolvido na comunicação de sinais sociais de segurança.

Neurociência - Comportamento - Comunicação em Grupo - Investigação Fundamental 
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